A funcionáriaa públicaa Ivete Menezess Farias, 32 anos, era uma pessoa plenamente realizada. Tinha uma filha de 7 anos que estudava na primeira série do ensino fundamental, um marido que amava e um emprego estável que lhe garantia uma boa renda. No final de outubro do ano passado, Ivete viajou com a família de carro para visitar amigos na cidade mineira de Governador Valadares. Um acidente na BR-259, próximo ao entroncamento de Conceição de Tronqueiras (MG), matou o marido, que dirigia o carro e a filha, que estava deitada no banco de trás, dormindo. Ivete escapou com vida, mas está internada por tempo indeterminado no Hospital Sara Kubitschek.

Como as pernas foram esmagadas na colisão, há uma grande possibilidade de ela só poder se locomover com o auxílio de uma cadeira de rodas. “Até agora não entendi bem o que aconteceu. Lembro que era madrugada e passávamos por uma curva. Depois só me lembro das ferragens retorcendo e os estilhaços de vidros vindo para cima de mim”, relata. Na verdade, o carro em que Ivete viajava chocou-se com um ônibus e, pelas fotos do acidente, pode-se afirmar que ela está viva por obra de um milagre. Socorrida por policiais rodoviários federais, a funcionária pública aumentou uma estatística que o governo federal tenta, sem sucesso, diminuir ao longo dos anos. Nos últimos 10 anos, só na malha rodoviária federal, ocorreram 1,1 milhão de acidentes de carro, ferindo 616,6 mil pessoas e matando 62,7 mil. Nenhuma doença, nem armas de fogo ou outra causa externa provocou tanta morte no Brasil. Só no ano passado, mais de 120 mil acidentes foram registrados nas rodovias – um novo recorde – tirando a vida de 5,2 mil pessoas. Metade delas perdeu a vida no local da colisão.

Entre os estados que lideram o ranking nacional de acidentes estão os que possuem a maior malha viária. Minas Gerais vence disparadamente, seguido por Santa Catarina e Rio de Janeiro. “Se considerarmos as mortes nas estradas estaduais e nas cidades, esses números triplicam”, ressalta o inspetor Alexandre Figueiredo, chefe do Núcleo de Informações da Polícia Rodoviária Federal (PRF). O universitário Marcelo Zalluth, 24 anos, seguiu de Porto Alegre para Belo Horizonte de carro em julho com mais dois amigos. Na volta, parou num bar para comemorar a formatura no curso de direito e a possibilidade de ser contratado no escritório onde estagiava. Debilitado, até hoje Marcelo não conseguiu exercer a profissão que tanto sonhou. Ao prosseguir a viagem, perdeu o controle do carro porque dirigia em alta velocidade. Hoje, ele anda com muletas e fará fisioterapia durante um ano e meio para tentar recuperar os movimentos das pernas. “Não foi o álcool. Um pneu estourou ao passar num buraco e capotamos”, conta. Um dos amigos, Fernando Serrão, 21, saiu ileso e o outro, Orlando Junqueira, 22, viajava sem cintos de segurança, foi cuspido para fora do carro na primeira capotagem e sofreu ferimentos. “O que mais chama a atenção é que as estatísticas de mortes nas estradas não assustam mais o brasileiro”, diz o sociólogo Lindenberg Otaviano Souza, da Universidade de Campinas (Unicamp).

Buracos
Ao contrário do que muita gente imagina, os buracos nas estradas não são os maiores causadores de acidentes. Segundo a PRF, uma pesquisa feita em todo o país mostrou que, dos 112 mil acidentes que ocorreram em 2004, pelo menos 91 mil deles foram em pistas em boas condições. Do total, 70% ocorreram em trechos retos e bem sinalizada. “Com a operação tapa-buracos, a tendência é que os acidentes aumentem”, prevê Alexandre Figueiredo. “Na estrada bem conservada, o motorista tem a falsa ilusão de que a rodovia em bom estado vai trazer segurança para ele, o que faz com que o condutor aumente a velocidade e perca a noção dos limites do veículo, causando acidentes”, esclarece João Roberto Vargas, da PRF.

Pelos números da Polícia Rodoviária Federal, 28% de todas as colisões que ocorrem nas estradas federais têm como causa a falta de atenção do motorista. Em pelo menos 9%, o condutor abusava da velocidade e 4% não obedeceram alguma sinalização. “Em velocidade acima do permitido, não se percebe um aviso de curva perigosa ou uma placa alertando a estrada será encurtada ou bifurcada. Por isso ocorrem acidentes em locais previsíveis, como na chamada Sete Curvas (BR-060), em Goiás”, explica instrutor de Educação no Trânsito, Gilberto Termin, da Polícia Rodoviária Estadual de Goiás.

A Rede Sarah é uma referência no Brasil, quando se fala na recuperação de vítimas de acidentes. No topo das estatísticas do hospital, os desastres de carro nas estradas são a principal causa de internações. O perfil de quem se trata no local é impressionante: a maioria é homem trabalhador com futuro promissor e que está na fase mais produtiva da vida, entre 15 e 39 anos. São solteiros, pertencem à classe média e moram na área urbana.

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